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A aposta da anulação dependia de uma conta: quanto papel ficaria de fora. Se uma fatia grande não voltasse, o Reserve Bank of India poderia baixar esse passivo do balanço (a nota é uma dívida do banco central com quem a segura), e o governo teria um ganho contábil.
O ganho não veio. O relatório anual do Reserve Bank of India de agosto de 2018 contou 15,31 trilhões de rúpias devolvidas, 99,3% do total anulado. Ficaram fora do sistema cerca de 107 bilhões de rúpias.
POR QUE QUASE TUDO VOLTOU
A primeira razão: a riqueza não declarada da Índia não morava só em papel. Ela estava em imóveis, ouro e contas no exterior, ativos que a anulação não tocou.
A segunda: o papel que existia achou caminho. Parte foi depositada em contas de parentes, de funcionários e em contas Jan Dhan (as contas populares de saldo zero abertas pelo governo a partir de 2014), em valores abaixo do radar do fisco. Parte serviu para pagar salário atrasado e quitar dívida antes do prazo.
A terceira foi uma porta oficial. Em dezembro de 2016, o governo abriu o Pradhan Mantri Garib Kalyan Yojana (um programa de anistia fiscal), que permitia declarar dinheiro não tributado pagando cerca de 50% entre imposto e multa, com um quarto do saldo travado por 4 anos.
O fisco não ficou parado. Em janeiro de 2017, o Departamento de Imposto de Renda lançou a Operation Clean Money (operação dinheiro limpo), que cruzou depósitos grandes com a renda declarada e notificou quem não fechava a conta.
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“O processo pelo qual os bancos criam dinheiro é tão simples que a mente o rejeita.” (John Kenneth Galbraith, Money: Whence It Came, Where It Went, 1975)
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Galbraith escrevia sobre bancos que criam moeda. Na Índia, os bancos fizeram o caminho oposto: receberam o papel velho, conferiram e devolveram à economia em forma de saldo em conta.
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A nota anulada voltou ao banco; o dinheiro não declarado já tinha mudado de forma.
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O QUE FICOU DE GANHO
O efeito mais duradouro veio pelo celular. A UPI (Interface Unificada de Pagamentos, o Pix indiano), lançada em agosto de 2016 pela National Payments Corporation of India, pegou o empurrão de quem ficou sem nota e virou o meio de pagamento do dia a dia.
O papel, porém, voltou. Pelos dados do Reserve Bank of India, o dinheiro em circulação no país superou o nível de novembro de 2016 em poucos anos. O hábito da espécie sobreviveu à noite do corte.
A OPORTUNIDADE PARA O BRASILEIRO
O brasileiro conhece a variação local. Em 16 de março de 1990, o Plano Collor, montado pela ministra Zélia Cardoso de Mello, bloqueou por 18 meses os saldos de poupança e conta corrente acima de 50.000 cruzados novos.
Os dois casos ensinam a mesma lição por lados opostos. Na Índia, quem tinha só papel ficou na fila; no Brasil, quem tinha só saldo no banco ficou sem acesso. A vantagem está em espalhar a reserva antes de precisar dela.
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