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A regra de 2024 que tirou o dólar digital mais usado da Europa

Desde 30 de junho de 2024, stablecoin na Europa exige emissor autorizado e reserva em banco do bloco. O USDT ficou fora.

Fachada de vidro de prédio de escritórios na rue de Bercy, em Paris, com trilhos de trem ao fundo.

Fachada de vidro na rue de Bercy, em Paris

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A 48,8 graus de latitude norte, na rue de Bercy, em Paris, a poucas quadras da margem direita do Sena, fica a sede da ESMA (a autoridade europeia que fiscaliza mercados de valores mobiliários). Das janelas se vê o trilho que sai da Gare de Lyon, e é dali que sai a lista de quem pode emitir dólar digital para clientes europeus.

Desde 30 de junho de 2024, essa lista decide o que circula nas corretoras do continente. A data marca a entrada em vigor das regras de stablecoin (moeda digital atrelada a uma moeda oficial, como o dólar ou o euro) dentro do MiCA, o regulamento europeu de mercados de criptoativos.

A regra cabe em três exigências. O emissor precisa de autorização dada por um país do bloco, como banco ou instituição de moeda eletrônica. A reserva que garante cada unidade fica, em boa parte, depositada em banco europeu. E o cliente tem que poder trocar a moeda digital pela oficial a qualquer momento, sem taxa.

A stablecoin mais negociada do mundo, o USDT, emitida pela Tether, com sede em El Salvador, não pediu a autorização. Ao longo de 2025, as grandes corretoras que atendem a Europa tiraram o USDT das contas de clientes europeus ou deixaram só a opção de vender.

O cliente de Lisboa ou de Milão que guardava dólar digital em USDT teve que trocar de moeda ou levar o saldo para fora da corretora. Quem ficou com USDC, a stablecoin da americana Circle, seguiu operando, porque a Circle obteve licença na França.

Para o brasileiro com conta em corretora europeia, ou que pensa em abrir uma, a mudança altera qual dólar digital chega até lá e qual fica barrado na porta. Também muda o tipo de proteção que o saldo carrega.

Como o regulamento separa os tipos de moeda digital, quem fiscaliza cada um e onde a reserva precisa morar, vem no Painel da Semana.

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I  Painel da Semana

O que o MiCA exige de quem emite

O Regulamento (UE) 2023/1114, conhecido como MiCA (sigla em inglês para Mercados de Criptoativos), foi publicado no Jornal Oficial da União Europeia em 9 de junho de 2023. Vale direto nos 27 países do bloco, sem lei nacional que o traduza, e também no Espaço Econômico Europeu.

O texto entrou em duas etapas. As regras de stablecoin começaram em 30 de junho de 2024. As regras para corretoras e custodiantes começaram em 30 de dezembro de 2024, com transição nacional que terminou, no prazo mais longo, em 1º de julho de 2026.

DOIS TIPOS DE MOEDA ESTÁVEL

O MiCA chama de e-money token (token de moeda eletrônica) a stablecoin atrelada a uma única moeda oficial, caso do USDT, do USDC e do EURC. Chama de asset-referenced token (token referenciado a ativos) a que se apoia numa cesta de moedas, ouro ou outros ativos.

O primeiro tipo concentra quase todo o volume. Para emiti-lo, a empresa precisa ser banco ou instituição de moeda eletrônica autorizada num país do bloco, publicar um documento técnico (o white paper, que descreve a moeda e seus riscos) e notificá-lo ao supervisor nacional.

ONDE A RESERVA MORA

O dinheiro recebido pelo emissor fica separado do caixa da empresa. Pelo artigo 54 do regulamento, ao menos 30% dele precisa estar depositado em bancos europeus; o restante vai para títulos de alta liquidez na mesma moeda de referência.

Se o supervisor classifica a moeda como significativa, pelo tamanho ou pelo número de usuários, o depósito mínimo em banco sobe para 60%, e a EBA (a autoridade bancária europeia) assume parte da fiscalização.

No MiCA, cada dólar digital vendido na Europa tem um banco europeu segurando parte da reserva.

O resgate também é regra escrita. O detentor pode trocar a moeda digital pela oficial pelo valor de face, a qualquer momento, sem cobrança. E o emissor fica proibido de pagar juros a quem guarda a moeda, para que ela sirva para pagar e transferir, sem virar aplicação financeira.

QUEM VENDE TAMBÉM RESPONDE

A corretora entra na conta. O MiCA chama de CASP (prestador de serviços de criptoativos) a empresa que compra, vende ou guarda moeda digital para clientes. O CASP só pode oferecer stablecoin cujo emissor cumpra o regulamento, e é por essa ponta que a regra chegou ao USDT.

 
 

II  Análise de Oportunidade

O ano em que o USDT saiu das contas europeias

A Tether nunca escondeu a escolha. A empresa preferiu não pedir licença de moeda eletrônica em nenhum país do bloco, e, sem a licença, o USDT ficou sem enquadramento como token de moeda eletrônica autorizado no MiCA.

A CORRIDA DAS CORRETORAS

A Coinbase, maior corretora listada nos Estados Unidos, encerrou a negociação do USDT para clientes do Espaço Econômico Europeu em dezembro de 2024. Em 17 de janeiro de 2025, a ESMA publicou orientação pedindo que as corretoras restringissem as stablecoins sem autorização até o fim do primeiro trimestre.

A Binance, maior corretora do mundo em volume, cumpriu o prazo de 31 de março de 2025: o USDT passou a ficar só em modo de venda para usuários europeus. Kraken e outras plataformas seguiram roteiro parecido no mesmo período.

QUEM GANHOU A VAGA

A Circle tinha se adiantado. Em julho de 2024, obteve licença de instituição de moeda eletrônica junto à ACPR, o supervisor bancário francês, e passou a emitir USDC e EURC dentro do MiCA. Com o passaporte europeu (a licença de um país vale nos outros do bloco), a mesma autorização atende Lisboa, Berlim e Atenas.

Bancos tradicionais também entraram. A Société Générale, pela subsidiária SG Forge, lançou a stablecoin em euro EURCV com enquadramento no MiCA, e emissores menores pediram licença na Holanda, na Irlanda e em Malta.

“Todo banqueiro sabe que, se precisa provar que merece crédito, por melhores que sejam seus argumentos, seu crédito já se foi.” (Walter Bagehot, Lombard Street, 1873)

Bagehot escrevia sobre os bancos de Londres. O MiCA trocou a prova de crédito por exigência escrita: reserva separada, banco europeu e resgate garantido em lei.

Na Europa, o que define se um dólar digital circula é a licença do emissor, nunca o tamanho dele.

A OPORTUNIDADE PARA O BRASILEIRO

A regra cria um filtro útil. A stablecoin listada numa corretora europeia autorizada passou por supervisor nacional, tem reserva auditada e resgate pelo valor de face em lei. O brasileiro que mantém dólar digital fora do país ganha um critério objetivo para escolher onde guardar.

O limite também está escrito. O MiCA protege o detentor perante o emissor europeu; o USDT guardado numa corretora fora do bloco segue as regras do país dela, e o regulamento europeu não alcança essa conta.

Há ainda o lado do imposto. A Receita Federal trata stablecoin como criptoativo: a troca de USDT por USDC numa corretora estrangeira é uma operação de permuta e entra na apuração de ganho de capital, conforme a regra vigente para aplicações no exterior. Guarde o extrato com data, quantidade e cotação de cada troca feita para cumprir o MiCA.

 

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III  O Que Fazer Agora

4 passos para o seu dólar digital

Quem guarda parte do patrimônio em stablecoin, ou usa corretora europeia para diversificar, pode ajustar a carteira à regra em poucos passos.

1. Liste onde cada saldo está. Anote a corretora, o país da licença dela e a stablecoin de cada conta; o mesmo USDC tem regras diferentes numa plataforma europeia e numa de fora.

2. Consulte o registro da ESMA. A autoridade publica, no próprio site, a lista provisória de emissores e de CASPs autorizados no MiCA; se a corretora ou o emissor não aparece, o saldo europeu está fora da proteção.

3. Leia o white paper da stablecoin que você usa. O documento informa onde fica a reserva, quem a audita e como funciona o resgate.

4. Separe o dólar digital do dólar no banco. Stablecoin não tem garantia de fundo de depósitos: se o emissor quebrar, o detentor entra como credor da reserva separada, sem seguro bancário.

A regra europeia escolhe o emissor; a corretora e o prazo de resgate ficam com você.

Feita a lista, o passo seguinte é decidir o que trocar. Quem tem USDT numa corretora europeia pode converter para uma stablecoin autorizada, como USDC ou EURC, ou transferir o saldo para uma carteira própria. A conversão costuma cobrar a taxa normal de negociação da plataforma, e o saque para carteira própria cobra a taxa da rede usada na transferência.

O passo 2 costuma surpreender. Corretoras grandes que atendem brasileiros operam com licença de um país e anunciam para clientes de outro; a página do registro mostra qual entidade do grupo tem a autorização e para quais serviços.

O QUE O MICA NÃO COBRE

O regulamento deixou de fora o bitcoin minerado sem emissor, os tokens únicos (NFT, certificados de item digital exclusivo) e as finanças descentralizadas sem intermediário. Quem usa protocolo sem empresa por trás fica fora da proteção europeia.

“Se a sua corretora sumisse amanhã, você saberia em que país está a licença que protege o seu saldo?”

O MiCA prevê revisão: a Comissão Europeia deve entregar o relatório final sobre a aplicação do regulamento até 30 de junho de 2027. Reconfira nesse dia a lista de emissores autorizados no registro MiCA do site da ESMA.

 
 
Quiz da edição

Qual autoridade concedeu à Circle a licença que deu início à emissão do USDC e do EURC dentro do MiCA?

AA autoridade bancária da Holanda
BA ESMA, autoridade europeia de mercados
CA ACPR, supervisor bancário da França
DA autoridade de Malta

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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