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Diversificar lá fora e comprar mais do mesmo
O índice mundial mais comprado por brasileiros tem cerca de dois terços em ações americanas, e boa parte disso em meia dúzia de empresas.
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Mapa-múndi com etiquetas de peso por região
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O investidor abre o aplicativo, digita o nome do fundo de índice global, confirma o aporte e fecha a tela com a sensação de ter comprado o planeta inteiro. Quarenta e sete países numa linha só. A palavra mundial está no nome do produto e no material de venda.
O que entrou na carteira tem outro formato. A maior parte daquele dinheiro comprou empresas de um único país, e uma fatia expressiva dele comprou um punhado de empresas do mesmo setor dentro desse país.
Não existe truque nem letra miúda escondida. O índice é construído pelo valor de mercado de cada empresa, e o valor de mercado americano é hoje maior que o de todo o resto somado com folga. Um índice que pesa por tamanho vai repetir o tamanho do mundo real, e o mundo real está desequilibrado.
A confusão nasce em outro lugar: na palavra diversificação. Comprar quarenta e sete países parece o oposto de concentrar. Na prática, o comportamento da carteira passa a depender de uma bolsa, de uma moeda, de um banco central e de um punhado de balanços trimestrais.
Isso importa quando o investidor brasileiro já carrega uma segunda camada de exposição sem perceber. O emprego, o imóvel, a reserva, o negócio, tudo isso está em real. O ativo internacional deveria ser o contrapeso, e vira uma aposta de convicção alta em um só mercado.
Não existe erro moral em concentrar. Existe erro em concentrar sem saber, achando que se está fazendo o contrário. A carteira que aguenta uma década ruim é a que foi montada com o peso na tela, não com o peso imaginado.
O ponto de partida é olhar a composição real do índice que você já tem ou está prestes a comprar, país por país, antes de decidir qualquer rota alternativa.
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I Painel da Semana
O mundo que cabe em um país só
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A fotografia de peso que o nome do produto não mostra.
Um índice global ponderado por valor de mercado não distribui o dinheiro entre países, ele fotografa o tamanho de cada bolsa. Como a bolsa americana responde por parcela dominante do valor listado no mundo, o resultado é uma carteira global com maioria absoluta em um endereço só.
Os números redondos ajudam a enxergar a forma. Num índice de mercados desenvolvidos e emergentes, a distribuição costuma ficar perto disto:
| Estados Unidos | cerca de 65% |
| Japão | cerca de 5% |
| Reino Unido | cerca de 3% |
| Europa continental somada | cerca de 12% |
| Mercados emergentes inteiros | cerca de 10% |
| Brasil | abaixo de 1% |
Num índice só de mercados desenvolvidos, sem os emergentes, o peso americano sobe ainda mais e passa dos 70%. Quem escolheu o produto pelo nome, sem abrir a composição, geralmente está no segundo caso e não no primeiro.
A concentração não para no país. Dentro da fatia americana, as maiores companhias respondem por uma parcela desproporcional do índice inteiro. As dez maiores posições de um global costumam somar mais de um quinto de toda a carteira, e quase todas elas são americanas do mesmo setor.
O efeito prático aparece nos dias de movimento forte. Uma queda relevante em duas ou três dessas empresas move o fundo global inteiro, mesmo com quarenta e seis outros países comportados na composição. A carteira tem muitos nomes e poucos motores.
Vale olhar o outro lado da mesma conta. O peso pequeno de um país no índice não é julgamento sobre a economia dele, é medida do quanto daquela economia está listado em bolsa e disponível para o investidor estrangeiro comprar.
O Brasil aparece com fatia mínima num global não porque a produção brasileira seja irrelevante, e sim porque boa parte dela está em empresa fechada, em banco, em estatal e em setor de baixa presença listada. O índice mede o mercado, não o país.
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Harry Markowitz escreveu em Portfolio Selection, publicado no Journal of Finance em 1952, que a diversificação é observada e sensata, e que qualquer regra de comportamento que não implique a superioridade da diversificação deve ser rejeitada como hipótese e como máxima. O que ele mediu não foi a contagem de ativos, foi como eles se movem juntos.
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E é aí que o global ponderado por tamanho tropeça. Quarenta e sete países numa carteira soam como quarenta e sete apostas diferentes. Quando a correlação entre elas é alta e o peso está todo de um lado, o número de nomes vira estatística de folheto.
Definida a fotografia, a pergunta seguinte é onde esse peso já esteve antes e o que costuma acontecer com quem compra uma fatia no seu ponto mais alto.
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II Análise de Oportunidade
Onde o peso muda de mão
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A participação americana no valor de mercado global não é constante histórica, é ciclo. No fim dos anos 1980, o Japão chegou a representar a maior fatia do mercado acionário mundial, acima dos Estados Unidos, e índices globais da época carregavam essa concentração como se fosse ordem natural.
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O que veio depois entrou para os manuais. O mercado japonês levou décadas para reconquistar o topo anterior, e quem tinha comprado o mundo no auge daquela ponderação carregou o peso errado pelo período mais longo da própria vida de investidor.
Não é previsão de repetição. É o registro de que ponderação por tamanho é sempre uma aposta na continuidade do vencedor recente, e essa aposta às vezes é vencedora por vinte anos e às vezes cobra o preço por trinta.
O QUE MUDA QUANDO VOCÊ ESCOLHE A RÉGUA
Existem alternativas de construção, e cada uma resolve um problema diferente criando outro. Nenhuma delas é gratuita.
O índice de peso igual dá a mesma fatia para cada empresa, corta a dependência das gigantes e, em troca, aumenta o giro, o custo e a exposição a companhias menores. O índice por peso de economia distribui por participação no produto interno de cada país, o que sobe emergentes e desce a fatia americana, com liquidez pior no caminho.
Já a carteira montada em blocos separados, uma parte em mercados desenvolvidos e outra parte em emergentes, deixa o investidor definir o peso na mão em vez de aceitar o peso da bolsa. Dá trabalho e exige rebalanceamento, mas o número passa a ser decisão, não herança.
Comparando o peso americano em cada rota, para o mesmo aporte:
| Índice mundial padrão | cerca de 65% em EUA |
| Índice só de desenvolvidos | mais de 70% em EUA |
| Blocos separados com 30% em emergentes | perto de 45% em EUA |
| Índice de peso igual | perto de 35% em EUA |
A COTA DE CÂMBIO QUE VEM JUNTO
Existe uma segunda camada que quase ninguém marca na planilha: a moeda. Um índice global comprado em dólar entrega exposição cambial concentrada na mesma proporção do peso do país, e o investidor brasileiro que buscava proteção acaba com proteção contra um cenário só.
Nada disso torna o índice mundial padrão uma escolha ruim. Ele é barato, líquido, simples de operar e resolve o problema de quem tinha zero fora do Brasil. O erro está em comprá-lo achando que a concentração ficou para trás.
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