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Malta perdeu o passaporte de 750 mil euros

O Tribunal de Justiça da União Europeia declarou em abril de 2025 que vender nacionalidade por investimento viola o direito europeu.

Passaporte fechado sobre mesa clara ao lado de uma chave antiga de latão.

O fim do passaporte europeu à venda

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A 93 quilômetros ao sul da Sicília, Malta cabe em 316 quilômetros quadrados, área menor que a mancha urbana de Curitiba. Do alto das muralhas de Valeta se enxerga o porto inteiro sem virar a cabeça. Desse arquipélago saiu, por mais de dez anos, a via mais curta para um passaporte europeu comprado com dinheiro.

Passaporte é documento de Estado, e Estado pequeno dentro de um bloco não decide sozinho o alcance do papel que emite. Quem adquire a nacionalidade de um país membro adquire, na prática, o direito de circular, residir e trabalhar em outros vinte e seis. Foi essa extensão que levou o assunto para dentro de um tribunal.

O comprador de um programa desses raciocina como quem contrata um serviço com prazo de entrega. Existe uma tabela de preços, uma lista de documentos, uma agência credenciada, um advogado que acompanha o processo e uma previsão de meses até a cerimônia de juramento. Tudo se parece com uma transação comercial comum, e é justamente essa aparência que virou o problema jurídico.

Nacionalidade não se comporta como mercadoria entregue e esquecida na gaveta. Ela é um vínculo jurídico entre uma pessoa e um Estado, sustentado por um pressuposto de ligação real com o país. Vínculo criado por transferência bancária fica exposto a duas revisões que não dependem do titular: a do próprio parlamento que aprovou a lei e a de um tribunal acima dele.

Quem monta um plano B costuma comparar programas por preço e por prazo. Três variáveis ficam de fora da planilha e valem mais que as duas primeiras: a estabilidade jurídica do desenho, a reputação daquele passaporte no guichê de imigração de terceiros países, e a pressão política do bloco ao qual o país emissor pertence.

O caso maltês pôs as três à prova ao mesmo tempo, e o resultado saiu num acórdão com data e número de processo.

Vale começar pelo dia em que o tribunal se pronunciou e pelo que exatamente ele declarou incompatível com o direito europeu.

Continue lendo ↓

 
 

I  Painel da Semana

O acórdão de 29 de abril de 2025

O dia em que o tribunal decidiu, e o que ele declarou ilegal.

A Grande Secção do Tribunal de Justiça da União Europeia decidiu em 29 de abril de 2025, no processo C-181/23, que o programa maltês de naturalização por investimento viola o direito europeu. A ação tinha sido movida pela Comissão Europeia contra Malta, e o julgamento saiu contra o Estado membro.

O raciocínio do tribunal partiu de um ponto simples de acompanhar. Conceder a nacionalidade de um país membro em troca de pagamentos ou investimentos previamente tabelados equivale a comercializar a atribuição dessa nacionalidade e, por consequência, da própria cidadania da União. Um Estado membro decide sozinho quem são seus nacionais, mas exerce essa competência dentro dos limites do direito europeu.

Os artigos invocados foram o 20 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, que cria a cidadania da União e a atrela à nacionalidade de um Estado membro, e o 4, número 3, do Tratado da União Europeia, o princípio da cooperação leal entre os países do bloco.

A cronologia do processo:

Programa individual de investidores criado em Malta2014
Comissão Europeia abre processo por infraçãooutubro de 2020
Programa substituído pelo desenho de naturalização por serviços excepcionaisnovembro de 2020
Caso remetido ao Tribunal de Justiça, processo C-181/232023
Parecer do advogado-geral Anthony Collins, favorável a Malta4 de outubro de 2024
Acórdão da Grande Secção contra Malta29 de abril de 2025

Um detalhe do percurso merece atenção de quem acompanha litígio europeu para calcular risco. O advogado-geral Anthony Collins apresentou em outubro de 2024 um parecer que recomendava julgar a ação improcedente, ou seja, dar razão a Malta. O parecer do advogado-geral orienta o tribunal e costuma ser seguido, mas não vincula. Sete meses depois, a Grande Secção decidiu no sentido oposto.

Malta não foi o primeiro país do bloco a operar um programa assim, nem o primeiro a encerrar um. Chipre suspendeu o próprio esquema de cidadania por investimento em novembro de 2020, depois de uma reportagem investigativa da Al Jazeera sobre a concessão de passaportes a candidatos com processos criminais. A Bulgária revogou o programa de cidadania por investimento em 2022. Malta ficou como o último endereço do bloco com a porta aberta, e o acórdão fechou a porta pela via judicial.

Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, publicado em 1951, descreve a cidadania como o direito a ter direitos, a condição que torna todos os outros exigíveis diante de um Estado. Um direito com tabela de preços troca de natureza, e a decisão de Luxemburgo diz em linguagem de tratado o que ela escreveu em linguagem de filosofia política.

O que interessa a quem tinha esse caminho no plano é entender exatamente o que estava sendo comprado, e quanto custava.

 
 

II  Análise de Oportunidade

O plano B que dependia de um cheque

O desenho maltês pedia contribuição de 600 mil euros com 36 meses de residência prévia, ou 750 mil euros com 12 meses, mais imóvel e doação. O preço da via rápida era a diferença entre os dois valores, e o mercado de consultoria vendia a versão de doze meses como a padrão.

Além da contribuição principal, o candidato precisava comprar um imóvel em Malta a partir de 700 mil euros, ou alugar por pelo menos 16 mil euros anuais durante cinco anos, e doar 10 mil euros a uma organização filantrópica maltesa registrada. Somando família, honorários advocatícios, taxas de diligência e o imóvel, a conta cheia passava com folga de um milhão de euros.

O QUE O CHEQUE COMPRAVA

Contribuição com residência de 36 meses600 mil euros
Contribuição com residência de 12 meses750 mil euros
Compra de imóvel exigidaa partir de 700 mil euros
Alternativa de arrendamento16 mil euros por ano, por 5 anos
Doação a entidade filantrópica maltesa10 mil euros
Status obtidonacionalidade maltesa e cidadania da União

RESIDÊNCIA E NACIONALIDADE SÃO INSTRUMENTOS DIFERENTES

Existe uma confusão frequente entre os dois produtos, e ela custa caro em planejamento. Programa de residência por investimento, do tipo que Portugal, Grécia e Espanha operaram, entrega autorização para morar, com renovações periódicas e um caminho longo até a naturalização. Programa de cidadania por investimento entrega o passaporte direto, sem o percurso de anos de morada efetiva.

O acórdão de abril de 2025 atinge o segundo tipo. Os regimes de residência por investimento continuam existindo em vários países do bloco, com regras próprias e sob revisão política constante, mas não foram objeto daquele processo.

Para quem já obteve a nacionalidade maltesa pelo programa, a decisão não cancela automaticamente o passaporte na gaveta. O acórdão declara o descumprimento do direito europeu pelo Estado e obriga Malta a adequar a legislação. A situação de cada naturalizado passa a depender do que o parlamento maltês aprovar em seguida e de eventuais revisões caso a caso.

Existe ainda um custo que nunca aparece na tabela do consultor, e ele é o mais difícil de reverter: a reputação do documento no guichê. Passaporte associado a esquema de venda tende a ser reexaminado por terceiros países. O Canadá revogou em 2014 a isenção de visto para São Cristóvão e Neves depois de problemas com o programa de cidadania da ilha. A União Europeia suspendeu a isenção de visto concedida a Vanuatu por motivo parecido.

Quem comprou o documento contando com liberdade de circulação descobre que a liberdade era concedida por outros Estados, e concessão se revoga por decisão administrativa, sem processo judicial e sem aviso prévio ao titular.

A conclusão prática não é abandonar a ideia de um segundo passaporte, e sim trocar a rota que leva até ele.

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III  O Que Fazer Agora

Como reconstruir o plano B sem o atalho

Hoje: liste em uma folha os documentos de nacionalidade e residência que já existem na sua família, incluindo os dos seus pais e avós. Certidão de nascimento de ascendente estrangeiro é o ativo mais barato e mais estável de um plano B, e a maioria das famílias brasileiras tem pelo menos um caminho aberto sem saber.

Nesta semana: verifique se o programa que está na sua lista é de residência ou de nacionalidade. Os dois exigem estratégias diferentes de prazo, de tributação e de risco político, e o material de venda das consultorias costuma tratar os dois com o mesmo vocabulário.

Neste mês: monte a linha do tempo real do seu caminho preferido, contando os anos de residência efetiva exigidos até a naturalização, os requisitos de idioma e as obrigações fiscais que aparecem no meio do percurso. O prazo verdadeiro costuma ser o dobro do que aparece no folheto.

Prefira rotas ancoradas em lei ordinária consolidada, como ascendência, casamento e naturalização por tempo de residência. Programa criado por decreto ou por lei recente de atração de capital vive exposto à mudança de governo e à pressão de organismos supranacionais.

Verifique o histórico do programa antes de pagar a primeira parcela. Procure processos por infração, recomendações do Grupo de Ação Financeira Internacional e relatórios do Parlamento Europeu sobre o país emissor. Um programa sob escrutínio há anos já entrega a sua própria previsão de vida útil.

Separe o dinheiro do documento na sua análise. Diversificar patrimônio entre jurisdições, abrir conta em banco estrangeiro e manter parte da reserva em outra moeda são movimentos que independem de nacionalidade nova e resolvem boa parte do que motiva um plano B.

Consulte advogado habilitado no país de destino, não apenas o intermediário que vende o programa. A agência de consultoria é remunerada pelo fechamento do contrato, e a análise de risco jurídico que interessa a você não é a que interessa a ela.

"Se o passaporte que você planeja comprar perdesse metade dos países que ele abre hoje, o investimento ainda se justificaria?"

O parlamento maltês precisa adequar a legislação nacional ao acórdão, e o texto aprovado é o que define a situação de quem já se naturalizou e de quem tem processo em curso. Reconfira o Registo de Cidadania Maltesa no site da agência que administra a naturalização em janeiro, quando entram em vigor as alterações legislativas do país, e acompanhe o processo C-181/23 na página de jurisprudência do Tribunal de Justiça em curia.europa.eu para eventuais desdobramentos de execução.

 
 
Quiz da edição

Pelo texto, quanto custava a contribuição principal do programa maltês para quem escolhia a via de 12 meses de residência prévia?

A600 mil euros
B700 mil euros
C750 mil euros
D1 milhão de euros

Resultado da última edição: 0% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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