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O índice alemão carregou uma fraude por 21 meses
A Wirecard entrou no DAX em setembro de 2018 e em junho de 2020 admitiu que 1,9 bilhão de euros do balanço provavelmente nunca existiram.
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Pasta de couro com extrato bancário arquivado
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A 490 metros de altitude, em Aschheim, vilarejo bávaro a 12 quilômetros da praça central de Munique, ficava o número 35 da Einsteinring: prédio baixo de vidro, estacionamento largo, campo aberto do outro lado da rua. De lá saía a contabilidade da Wirecard AG, processadora de pagamentos eletrônicos que em setembro de 2018 tinha valor de mercado maior que o do Deutsche Bank, o maior banco do país.
Em 24 de setembro de 2018, a Wirecard tomou a vaga do Commerzbank no DAX, o índice das trinta maiores companhias listadas da Alemanha. A entrada não é cerimônia simbólica. Fundo indexado, plano de previdência europeu e gestora passiva compram o índice inteiro por regra de mandato, sem opinar sobre cada nome. Quem tinha um fundo de ações alemãs naquele mês passou a ser sócio da empresa de Aschheim sem nunca ter decidido comprar aquela ação.
Vinte e um meses depois, em 18 de junho de 2020, a auditoria Ernst & Young recusou assinar o balanço de 2019 da companhia porque não encontrou comprovação de 1,9 bilhão de euros que a Wirecard dizia manter em contas fiduciárias nas Filipinas, ou seja, contas de custódia abertas em nome de um terceiro que guarda dinheiro alheio. Em 22 de junho, o próprio conselho comunicou ao mercado que aquele saldo provavelmente jamais existiu.
O papel que valia 104 euros na véspera do comunicado do auditor fechou junho abaixo de 2 euros. Em 25 de junho de 2020 a Wirecard pediu insolvência na corte de Munique, a primeira companhia do DAX a fazer o pedido enquanto integrava o índice.
A sequência entre a recusa do auditor e o pedido de insolvência coube em sete dias, e cada um deles tem registro público de bolsa e de tribunal. Vale reconstruir esse relógio antes de discutir o que ele ensina sobre usar índice como filtro de qualidade.
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I Painel da Semana
Sete dias entre o auditor e a corte de Munique
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O que aconteceu entre a recusa do parecer de auditoria e o pedido de insolvência.
Markus Braun, austríaco formado em ciência da computação que assumiu a direção da Wirecard AG em 2002 e comandou a empresa por dezoito anos, renunciou ao cargo em 19 de junho de 2020, um dia depois de a Ernst & Young recusar o parecer de auditoria. Foi preso em Munique quatro dias mais tarde e pagou fiança de 5 milhões de euros para responder em liberdade.
O gatilho tinha hora marcada. A companhia adiaria pela quarta vez a publicação do balanço de 2019 e, na manhã de 18 de junho de 2020, informou à bolsa que o auditor não recebera dos bancos filipinos a confirmação dos saldos fiduciários. A ação, negociada em Frankfurt sob o código WDI, caiu cerca de 62% naquele pregão.
O dinheiro deveria estar em duas instituições de Manila. Tanto o BDO Unibank quanto o Bank of the Philippine Islands declararam publicamente que a Wirecard não era cliente e que os documentos apresentados como comprovante de saldo eram falsificados. O banco central filipino confirmou dias depois que o valor nunca entrou no sistema financeiro do país.
O QUE CAIU EM SETE PREGÕES
Em 22 de junho a empresa fez a admissão formal. O comunicado ao mercado dizia que existia probabilidade dominante de que as contas fiduciárias de 1,9 bilhão de euros não existissem, e retirou de circulação as demonstrações financeiras de 2016, 2017, 2018 e o balanço trimestral de 2019. Um quarto do ativo declarado saiu do papel numa nota de duas páginas.
Jan Marsalek, diretor de operações responsável justamente pelo negócio asiático, foi demitido em 18 de junho e sumiu no fim daquela semana. A polícia alemã emitiu mandado internacional de prisão contra ele, e desde então o executivo não foi localizado em nenhuma jurisdição cooperante.
Em 25 de junho o conselho pediu a abertura de insolvência na corte distrital de Munique, alegando iminente incapacidade de pagamento e endividamento excessivo. A companhia devia cerca de 3,2 bilhões de euros a bancos e detentores de títulos, e as linhas de crédito rotativo foram cortadas assim que a admissão saiu.
O índice reagiu com atraso administrativo. A Deutsche Börse, operadora da bolsa alemã, só retirou a Wirecard do DAX em 24 de agosto de 2020, dois meses depois do pedido de insolvência, porque o regulamento vigente exigia aguardar a revisão trimestral ordinária da composição. Todo fundo que replicava o índice carregou o papel insolvente durante esse intervalo.
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II Análise de Oportunidade
O índice é uma lista de tamanho, nunca um selo
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A regra que colocou a Wirecard no DAX em 2018 media flutuação de mercado e volume negociado, e não qualidade contábil: empresa grande e líquida entra, empresa pequena sai, e nenhuma etapa do processo verifica se o ativo declarado no balanço existe. O índice ordena por tamanho; o investidor é que empresta a ele a autoridade de filtro.
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A confusão custou caro porque o dinheiro comprado por regra é enorme. Fundo de índice, plano de pensão europeu e carteira passiva de gestora global compram o componente na proporção do peso dele, sem análise individual. Quando a Wirecard entrou, todo esse dinheiro teve que comprar o papel, e a compra automática sustentou a cotação em um patamar que a checagem independente já contestava havia anos.
Porque contestação existia, documentada e datada. O jornal Financial Times publicou em janeiro de 2019 a série de reportagens que o repórter Dan McCrum assinou sobre o escritório de Singapura da companhia, com denúncia interna de lançamentos contábeis inventados. A resposta institucional foi surpreendente: a BaFin, autoridade financeira alemã, proibiu por dois meses a venda a descoberto de ações da Wirecard e abriu procedimento contra os jornalistas por suspeita de manipulação.
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Dan McCrum escreveu em Money Men: A Hot Startup, a Billion Dollar Fraud, a Fight for the Truth, de 2022, que a defesa mais eficaz da companhia nunca foi contábil, e sim o constrangimento de que uma das maiores empresas listadas do país pudesse ser um engano do sistema inteiro.
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O QUE MUDOU NA REGRA E O QUE FICOU EM ABERTO
A Deutsche Börse reformou o regulamento em 2021. Empresa em insolvência passou a sair do índice em dois dias úteis, e companhia listada nos índices de seleção precisa entregar demonstrações auditadas e relatórios trimestrais em prazo fixo, sob pena de exclusão. O DAX também subiu de trinta para quarenta componentes em setembro de 2021.
A responsabilização judicial correu devagar. O julgamento criminal de Markus Braun por fraude, manipulação de mercado e desvio começou na corte regional de Munique em dezembro de 2022 e seguia em fase de instrução na Alemanha ao longo de 2025, com o acusado negando as acusações e atribuindo o desvio a terceiros dentro da empresa.
Convém dizer com todas as letras o que não tem número fechado. Não existe apuração pública consolidada de quanto cada categoria de investidor perdeu na queda, nem levantamento oficial de quanto do prejuízo coube a cotista de fundo passivo que jamais escolheu aquele papel. O administrador da insolvência segue recuperando ativos, e o total devolvido a credores só será conhecido quando o processo encerrar.
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