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ED 019

O Nikkei levou 34 anos para voltar ao mesmo lugar

Fechou em 38.915 pontos em dezembro de 1989 e só reencontrou esse nível em fevereiro de 2024, o prazo real de quem ancora tudo em um mercado só.

Painel eletrônico de cotações numa rua de Tóquio.

Painel de cotações em Tóquio

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Todo investidor carrega uma estimativa silenciosa de quanto tempo o mercado leva para se recuperar de uma queda. A estimativa quase nunca é escrita, quase nunca é conferida, e costuma orbitar algo entre dois e cinco anos, porque é essa a memória que a experiência recente de cada um oferece.

Essa estimativa governa decisões grandes. Ela define quanto risco alguém aceita carregar perto da aposentadoria, quanto dinheiro entra de uma vez, e com que tranquilidade a pessoa dorme depois de ver a carteira encolher um terço em poucos meses.

O problema é a amostra. Quem aprendeu a investir nas últimas três décadas viu quedas fortes seguidas de recuperações rápidas, e passou a tratar a recuperação rápida como uma propriedade dos mercados de ações em vez de uma característica de um período específico de um país específico.

Existe um limite superior conhecido para esse prazo, e ele não veio de um país periférico nem de um mercado pequeno demais para servir de aviso. Veio da segunda maior economia do mundo na época, num índice de empresas globais com marcas que qualquer pessoa reconhece.

O prazo desse caso não se mede em anos, se mede em gerações. Um investidor que entrou no ponto errado e viveu o suficiente para ver o preço voltar tinha filhos crescidos e netos nascidos quando a conta finalmente empatou.

Nenhuma dessas empresas desapareceu. Elas continuaram vendendo carros, eletrônicos, máquinas e serviços financeiros pelo mundo inteiro durante todo o período. O que travou não foi a economia real do país, foi o preço que o mercado havia aceitado pagar por ela.

A lição não está no Japão. Está na estrutura de qualquer carteira que concentra a maior parte do patrimônio em um mercado só, porque a concentração transforma a sorte de um único país no destino inteiro de uma vida financeira.

Comece pela data e pelo número exato do topo, porque é a distância entre ele e o dia do reencontro que dá a dimensão real do risco de concentração.

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I  Painel da Semana

De 38.915 pontos até fevereiro de 2024

Os dois fechamentos que delimitam 34 anos de espera.

Em 29 de dezembro de 1989, no último pregão do ano, o índice Nikkei 225 fechou em 38.915 pontos, o nível mais alto da história daquele mercado. Só em 22 de fevereiro de 2024 o índice fechou acima desse valor de novo, aos 39.098 pontos.

O intervalo entre as duas datas é de 34 anos e quase dois meses. Quem comprou o índice inteiro no fechamento daquele dezembro passou mais de três décadas com a posição no vermelho quando medida em preço, sem nenhum ativo ter quebrado no caminho.

O topo não foi um acidente isolado. Ele coroou uma década de valorização em que ações e imóveis japoneses subiram juntos, alimentados por crédito barato e pela convicção de que os preços de terra no país jamais cairiam de forma duradoura.

Os números que delimitam o período mostram o tamanho da distância percorrida:

Fechamento do Nikkei 225 em 29 de dezembro de 198938.915 pontos
Fechamento do Nikkei 225 em 22 de fevereiro de 202439.098 pontos
Intervalo entre os dois fechamentos34 anos e quase dois meses
Fundo do índice em 10 de março de 2009cerca de 7.055 pontos
Queda acumulada do topo até o fundoaproximadamente 82%
Taxa básica do Banco do Japão em 1989perto de 6% ao ano
Taxa básica do Banco do Japão a partir de 1999praticamente zero

A descida foi longa e teve várias falsas partidas. O índice caiu quase pela metade já em 1990, recuperou parte do terreno em ondas curtas ao longo dos anos noventa, e cada uma dessas ondas convenceu uma nova leva de compradores de que o pior tinha passado.

O sistema bancário travou o resto. Bancos japoneses carregaram por anos empréstimos ligados a imóveis que valiam uma fração do valor contratado, e o reconhecimento lento dessas perdas manteve o crédito escasso justamente quando a economia precisava dele.

A demografia entrou como pano de fundo. A população em idade de trabalho começou a encolher em meados dos anos noventa, o que retirou da equação o crescimento populacional que sustenta parte da expansão de lucros em economias jovens.

Também houve deflação persistente. Com preços caindo, adiar consumo virava decisão racional para as famílias, e o mesmo raciocínio se aplicava às empresas em relação a investir, o que prolongou o período de crescimento nominal fraco.

Charles Kindleberger, em Manias, Pânicos e Crashes, publicado pela Basic Books em 1978, descreveu o momento em que o crédito abundante deixa de financiar produção e passa a financiar apenas a compra do próprio ativo que está subindo. O Japão do fim dos anos oitenta é o exemplo mais completo dessa fase.

Vale olhar o que o número do índice esconde, porque a leitura crua de preço distorce o que aconteceu com o investidor real.

 
 

II  Análise de Oportunidade

O que o índice esconde de quem olha só o preço

Um índice de preço não conta a história inteira, porque ele ignora dividendos, ignora a moeda em que a pessoa gasta e ignora quem foi comprando ao longo do caminho em vez de entrar tudo de uma vez. As três omissões mudam bastante o tamanho da conta.

O Nikkei 225 é um índice de preço, não de retorno total. Empresas japonesas pagaram dividendos durante todas essas décadas, e quem reinvestiu esses pagamentos empatou anos antes do que a linha do gráfico sugere, ainda que muito depois do que qualquer plano razoável previa.

Existe também o efeito da moeda. Um investidor estrangeiro carregava, junto com as ações, uma posição em iene, e movimentos grandes do câmbio contra o dólar ou contra o real fizeram o resultado dele descolar bastante do índice em pontos.

Compare o que a leitura crua sugere e o que o investidor de fato enfrentou:

Leitura pelo índice de preço34 anos sem retorno nenhum
Leitura com dividendos reinvestidosempate bem mais cedo, ainda que em prazo longo
Leitura de quem entrou tudo no topoprazo integral, sem atenuante
Leitura de quem aportou todo mêspreço médio muito abaixo do topo

O RISCO QUE NENHUM GRÁFICO DE TRÊS ANOS MOSTRA

Concentração em um mercado só não é uma escolha de rentabilidade, é uma escolha de exposição a um destino. Quem coloca a maior parte do patrimônio num único país está apostando que a próxima geração daquele lugar será tão produtiva quanto a anterior.

A aposta costuma parecer segura justamente onde o histórico recente é melhor. Em 1989, o Japão era o caso de sucesso mais estudado do planeta, com superávits comerciais gigantescos, empresas comprando ativos no mundo inteiro e manuais de gestão exportados para todos os continentes.

Nenhum investidor japonês daquela época se via como alguém correndo risco de país. Ele se via comprando as melhores empresas do mercado mais vencedor do mundo, o que é exatamente o que se pensa hoje em qualquer mercado que acumulou uma década de alta.

O PREÇO PAGO IMPORTA MAIS QUE A EMPRESA

O caso japonês separa duas coisas que costumam andar confundidas. A qualidade das empresas de um índice diz respeito ao lucro que elas vão gerar. O múltiplo pago por elas diz respeito a quanto desse lucro futuro já foi antecipado no preço de hoje.

No fim de 1989, o mercado japonês negociava a múltiplos de lucro muito acima do que qualquer mercado grande sustentava na época. O preço embutia décadas de crescimento acelerado, e bastou o crescimento vir apenas razoável para o preço ficar sem lastro.

O mesmo mecanismo funciona ao contrário. Comprar um mercado deprimido não exige que o país volte a brilhar, exige apenas que ele seja menos ruim do que o preço supunha, e é por essa razão que carteiras espalhadas por regiões capturam recuperações que ninguém consegue antecipar.

A prova apareceu no próprio Japão. Quem comprou o índice em março de 2009, perto dos 7.055 pontos, viu o valor da posição multiplicar várias vezes nos quinze anos seguintes, no mesmo país e com boa parte das mesmas empresas que decepcionaram a geração anterior.

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III  O Que Fazer Agora

Como repartir a carteira entre países

Hoje: abra sua carteira e some quanto por cento do total está exposto a um único país, contando ações locais, títulos locais, imóveis e a empresa onde você trabalha. Escreva o número em uma folha e olhe para ele sem procurar justificativa.

Nesta semana: defina uma faixa alvo por região, com piso e teto para cada bloco, algo como mercado local, mercados desenvolvidos e mercados emergentes. Escreva a regra de reequilíbrio junto, para não decidir a alocação no meio de uma queda.

Neste mês: simule sua carteira com um prazo de recuperação de vinte anos em vez de três. Se o plano só funciona com retorno rápido, ele não é um plano de longo prazo, é uma aposta com data de vencimento implícita.

Trate a década recente de qualquer mercado como informação já embutida no preço. Desempenho passado forte atrai capital e eleva múltiplos, e múltiplo alto é justamente o que reduz o retorno esperado das décadas seguintes.

Aporte com regularidade em vez de escolher o momento. Quem comprou o mesmo valor todo mês no mercado japonês ao longo dos anos noventa acumulou cotas a preços muito abaixo do topo, e o preço médio dele nunca ficou refém de um único dia ruim.

Verifique se sua diversificação é real ou apenas nominal. Ter dez fundos que compram as mesmas empresas do mesmo país não é diversificação, é repetição, e o teste é olhar as posições finais em vez dos nomes dos produtos.

Case prazo com necessidade de caixa. Dinheiro que você vai usar em cinco anos não pode estar exposto a um ativo cujo pior caso conhecido levou três décadas para empatar, por mais improvável que esse pior caso pareça hoje.

Guarde a decisão por escrito antes que ela seja testada. A hora de definir quanto vai para cada região é a semana calma, porque na semana de pânico quem decide é o mesmo impulso que fez tanta gente comprar o topo de dezembro de 1989.

"Se o seu mercado principal ficasse trinta anos sem sair do lugar, quanto do seu patrimônio ainda teria para onde crescer?"

 
 
Quiz da edição

Depois do fechamento recorde de 38.915 pontos em dezembro de 1989, em que data o Nikkei 225 finalmente fechou acima desse nível de novo?

A10 de março de 2009
B22 de fevereiro de 2024
C29 de dezembro de 1999
D15 de agosto de 2019

Resultado da última edição: 100% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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Clímax da temporada

Maratona dos 7 dias finais

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Dia 4 de 7 · a temporada de agosto fecha 31/08

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