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O país que gastou a própria reserva

Em abril de 2022 o Sri Lanka suspendeu o pagamento da dívida externa, o primeiro calote da história do país, com a reserva cambial abaixo de US$ 2 bilhões.

Fila de carros em posto de combustível em rua de Colombo, Sri Lanka.

Fila de combustível em rua de Colombo

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Em Kollupitiya, bairro colado ao Forte de Colombo, a menos de 3 quilômetros do porto e ao nível do mar, a fila de um posto de combustível passava de um quilômetro nas manhãs de junho de 2022. Quem entrava nela dormia dentro do carro, com o motor desligado para não queimar o que ainda restava no tanque. Do começo da fila dava para ver o mar e os guindastes do terminal de contêineres parados, porque o navio-tanque ancorado do lado de fora só descarregava contra pagamento à vista, em dólar, e o dólar tinha acabado.

Em 12 de abril de 2022, o Banco Central do Sri Lanka anunciou a suspensão do pagamento da dívida externa. Foi o primeiro calote soberano do país desde a independência, em 1948, sobre um passivo externo da ordem de US$ 51 bilhões. A ilha de 22 milhões de habitantes que exportava chá, canela e turismo passou a integrar a lista curta dos países que avisaram ao credor que não pagariam no vencimento.

Calote é uma palavra grande para um evento técnico. As agências de classificação de risco rebaixaram a nota para default seletivo, o país perdeu acesso ao mercado internacional de crédito e passou a depender de linhas emergenciais de vizinhos e de organismos multilaterais. Um Estado não desaparece quando dá calote. Ele encolhe, e o encolhimento aparece primeiro no supermercado.

O câmbio contou a história antes do comunicado oficial. A rupia cingalesa era mantida perto de 200 por dólar até março de 2022, quando o banco central abandonou a banda e a moeda passou de 360 por dólar em poucas semanas. Na sequência, o Departamento de Censo e Estatística do Sri Lanka registrou inflação ao consumidor perto de 70% em setembro de 2022, o pico da série.

Quem mora a 15 mil quilômetros dali tem motivo prático para olhar a cena com atenção. Reserva cambial é a distância entre um país e o racionamento de combustível, remédio e gás de cozinha. A versão doméstica dessa distância é o patrimônio guardado em uma moeda só, num sistema só, sob uma jurisdição só.

Vale reconstruir a queda por dentro: de onde vinha a reserva, quais decisões a drenaram e em que ordem cada fonte de dólar do país secou.

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I  Painel da Semana

A reserva que secou em três anos

De onde vinha o dólar do país, quais decisões drenaram a reserva e em que ordem cada fonte secou.

A reserva cambial do Sri Lanka fechou 2019 em US$ 7,6 bilhões e chegou ao primeiro trimestre de 2022 abaixo de US$ 2 bilhões, uma queda de mais de 70% em pouco mais de dois anos, com parte do saldo remanescente já comprometida em linhas de swap que não podiam ser usadas para importar. O país chegou ao vencimento com o número do extrato e sem o dinheiro disponível.

A drenagem teve quatro torneiras abertas ao mesmo tempo. A primeira foi tributária. Em dezembro de 2019, o governo recém-eleito cortou impostos de forma agressiva, reduziu a alíquota do imposto sobre valor agregado de 15% para 8% e elevou o piso de isenção do imposto de renda. A arrecadação caiu, o déficit subiu e a conta passou a ser fechada com dívida.

A segunda foi o turismo. O Sri Lanka recebeu 2,3 milhões de visitantes em 2018 e vendia hotel, praia e safári como exportação de serviço, com entrada de dólar direta no caixa do país. Os atentados de abril de 2019 derrubaram o fluxo, e a pandemia fechou a fronteira em 2020. A receita turística, que passava de US$ 4 bilhões ao ano, desabou por dois anos seguidos.

A terceira foram as remessas. Trabalhador cingalês no Oriente Médio mandava dinheiro para casa e sustentava boa parte da conta corrente do país. Com o câmbio oficial travado em nível artificial, mandar dólar pelo banco virou mau negócio, e o fluxo migrou para o mercado paralelo. A remessa continuou existindo, só parou de entrar na reserva oficial.

A quarta foi agrícola e autoinfligida. Em abril de 2021, o governo proibiu a importação de fertilizante químico da noite para o dia, com a justificativa de economizar divisas e converter o país à agricultura orgânica. A safra de arroz caiu, a produção de chá, principal item da pauta de exportação, encolheu, e o país passou a importar o alimento que produzia. A proibição foi revertida em novembro do mesmo ano, tarde demais para a colheita.

SOBRE O CALENDÁRIO DO VENCIMENTO

Enquanto as quatro torneiras corriam, o calendário de pagamentos não se moveu. O país tinha emitido bônus soberanos internacionais em dólar ao longo da década anterior, com vencimentos concentrados, e precisava honrar cerca de US$ 1 bilhão em julho de 2022, além do serviço corrente das demais dívidas. Rolar esse volume exige mercado aberto, e o mercado fecha exatamente quando o devedor mais precisa dele.

O último recurso antes do anúncio foi imprimir rupia para pagar despesa doméstica e queimar dólar para segurar o câmbio. As duas medidas compraram meses e cobraram o preço em inflação e em reserva. Em 12 de abril, o pagamento parou.

 
 

II  Análise de Oportunidade

Quem paga a conta de um calote

O credor externo que aparece nas manchetes é o último a sentir a perda de um calote soberano: quem paga primeiro é o morador do país, na forma de câmbio, inflação e racionamento, e depois o poupador local, quando a reestruturação alcança a dívida emitida em moeda nacional. A conta desce antes de subir.

A inflação de quase 70% em setembro de 2022, medida pelo Departamento de Censo e Estatística do Sri Lanka, funcionou como um imposto cobrado sem lei. Quem tinha poupança em rupia viu o poder de compra encolher pela metade em menos de um ano. Salário fixo, aposentadoria e conta corrente foram atingidos na mesma proporção, sem que ninguém precisasse assinar decreto.

O racionamento veio junto. Hospital adiando cirurgia por falta de anestésico importado, escola suspendendo aula por falta de transporte, corte programado de energia porque a geração térmica depende de combustível comprado em dólar. Cada item dessa lista é uma importação que deixou de caber na reserva.

O QUE O CREDOR LOCAL DESCOBRIU

Em 2023, no âmbito do programa de ajuste, o país reestruturou também a dívida interna. Bancos, fundos de pensão e detentores locais de títulos entraram num acordo de troca com alongamento de prazo e redução de retorno. A lição é desconfortável e vale para qualquer país: título emitido pelo próprio governo, na moeda do próprio governo, carrega um risco que fica invisível por anos e aparece de uma vez quando o Tesouro esgota as alternativas.

Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff mostraram em Oito Séculos de Delírios Financeiros, de 2009, que o calote soberano é um evento recorrente e não excepcional na história econômica, e que a frase repetida às vésperas de cada crise, a de que desta vez é diferente, costuma ser o sinal mais confiável de que não é.

O caminho de volta seguiu o roteiro descrito no livro. O Fundo Monetário Internacional aprovou em março de 2023 um programa de US$ 2,9 bilhões, condicionado a aumento de arrecadação, reajuste de tarifa de energia e independência do banco central. Os detentores de bônus internacionais só fecharam acordo de reestruturação no segundo semestre de 2024, com desconto sobre o valor de face e novos títulos atrelados ao desempenho da economia.

Vale registrar o que se recuperou e em quanto tempo. A reserva bruta voltou ao patamar de bilhões ao longo de 2024, a inflação cedeu para um dígito e o turismo retomou. Nenhuma dessas recuperações devolveu a poupança perdida entre 2022 e 2023. Patrimônio destruído por câmbio e inflação não volta com a normalização do indicador, porque ele não estava esperando parado, estava sendo consumido.

O recado para quem observa de fora é direto. Um país com reserva pequena e vencimento concentrado em moeda que ele não emite carrega um risco que não aparece no extrato até o dia em que aparece inteiro. A mesma aritmética descreve uma pessoa física com patrimônio inteiro em um só país.

 

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III  O Que Fazer Agora

Reparta sua reserva antes do aperto

Primeiro passo: escreva numa folha só a divisão do seu patrimônio por moeda, em percentual. Reais, dólares, euros e qualquer outra. A maioria das pessoas descobre nesse exercício que tem 100% em uma moeda e nunca tomou essa decisão de forma consciente.

Segundo passo: defina qual fatia da sua reserva de emergência precisa estar em moeda forte e de acesso rápido. A pergunta que orienta o tamanho é prática: quantos meses de despesa você conseguiria pagar se a sua moeda perdesse 40% do valor em três meses, como a rupia perdeu entre março e junho de 2022.

Terceiro passo: separe o risco de moeda do risco de jurisdição. Ter dólar numa conta dentro do país não protege contra restrição de saque ou controle cambial. Ter parte do patrimônio custodiado fora, em instituição regulada e com o dinheiro declarado à Receita Federal, protege contra a restrição de saída de capital decidida por um governo apertado, e é essa restrição que aparece numa crise soberana.

Trate título público como um ativo com risco de emissor, não como um cofre. O Sri Lanka mostrou que a dívida em moeda local também entra na mesa de negociação quando o Tesouro esgota as saídas. Continue comprando título do governo quando o retorno compensar, apenas dimensione a posição sabendo o que ela carrega.

Acompanhe três indicadores do país onde está o seu dinheiro, todos públicos e mensais: reserva internacional bruta, saldo em conta corrente e cronograma de vencimento da dívida externa. No Brasil, os três saem nas estatísticas do Banco Central. Ler a série uma vez por trimestre custa vinte minutos e dispensa opinião de terceiro.

E cuide da documentação antes de precisar dela. Ativo no exterior exige declaração anual de bens à Receita Federal e, acima dos limites vigentes, declaração de capitais brasileiros no exterior ao Banco Central. Patrimônio protegido de câmbio e desprotegido de fisco troca um problema por outro.

"Quantos por cento do seu patrimônio dependem de uma única moeda continuar valendo o que vale hoje?"

O Banco Central do Sri Lanka publica a reserva internacional bruta em seu boletim mensal de indicadores econômicos, e o Banco Central do Brasil publica as estatísticas do setor externo brasileiro no fim de cada mês. Reconfira os dois números na primeira semana de outubro de 2026, com a sua planilha de divisão por moeda aberta ao lado.

 
 
Quiz da edição

Em dezembro de 2019, pra qual patamar o governo cortou a alíquota do imposto sobre valor agregado no Sri Lanka?

A12%
B10%
C8%
D5%

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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