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Os 12 bilhões de marcos que a Alemanha ainda troca
O marco saiu de circulação em 2002, e o Bundesbank ainda troca as notas por euro, sem prazo final. A França fechou o guichê do franco em 2012.
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Cédulas de marco alemão, a moeda anterior ao euro
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A 50 graus e 8 minutos de latitude norte, no bairro de Ginnheim, em Frankfurt, fica a sede do Deutsche Bundesbank, o banco central da Alemanha. Do prédio de concreto inaugurado em 1972 se avistam as torres dos bancos que formam o centro financeiro da cidade, a poucos quilômetros dali.
Nas filiais desse banco pelo país, qualquer pessoa pode chegar com uma cédula de marco alemão e sair com euros. A moeda deixou de circular no começo de 2002, e a troca continua aberta, sem data para acabar e sem cobrança de taxa. O atendente confere se a nota é verdadeira e paga o valor em euros.
A conta é fixa desde 31 de dezembro de 1998, quando os países do euro travaram suas taxas de conversão: 1 euro vale 1,95583 marco. Uma nota de 100 marcos rende 51,13 euros no guichê, hoje ou daqui a vinte anos.
O marco nasceu em 20 de junho de 1948, na reforma monetária das zonas do oeste da Alemanha ocupadas pelos aliados, e virou símbolo da reconstrução do pós-guerra. Para os alemães, a moeda estável também apagava a lembrança da hiperinflação de 1923, quando o preço de um pão chegou à casa dos bilhões de marcos da época.
Do outro lado do Reno, a França escolheu outro caminho. O Banque de France, o banco central francês, aceitou cédulas de franco até 17 de fevereiro de 2012. Passada essa data, o papel esquecido nas gavetas francesas perdeu o valor de troca e virou peça de coleção.
A Alemanha manteve a porta aberta, e o resultado aparece no balanço do Bundesbank. Uma montanha de marcos segue fora do banco, em cofrinhos, colchões, heranças, coleções e bolsos de casacos que ninguém usa há vinte anos.
Quanto dinheiro segue sem voltar, onde ele pode estar e como funciona a troca abrem o Painel da Semana.
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I Painel da Semana
I, Os marcos que ficaram nas gavetas
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Quanto marco segue fora do Bundesbank e como a troca por euro funciona.
Segundo o próprio Bundesbank, cerca de 12 bilhões de marcos em cédulas e moedas nunca foram devolvidos, algo acima de 6 bilhões de euros pela taxa fixa de conversão. O saldo encolhe devagar: a cada ano, segundo o mesmo banco, só algumas dezenas de milhões de marcos voltam aos guichês.
Pouco mais da metade do saldo está em moedas, de acordo com o Bundesbank. Moeda some com facilidade: cai atrás do sofá, fica em cofrinho de criança, sai do país no bolso de turista e vira lembrança de viagem.
O próprio banco reconhece que boa parte dessas moedas nunca vai voltar. Algumas foram perdidas, outras derretidas, outras estão em álbuns de colecionador que valem mais do que a troca oficial.
As cédulas contam outra história. Muitos alemães guardaram notas de propósito, como reserva de emergência em casa, hábito comum entre quem viveu a guerra e a reforma de 1948. Parte desse dinheiro reaparece quando uma família esvazia a casa de um parente idoso.
O noticiário alemão registra com frequência casos de marcos achados dentro de paredes, em forros de telhado e em livros antigos durante reformas. O Bundesbank troca todas as cédulas e moedas de marco emitidas desde 1948, inclusive as séries antigas que saíram de circulação antes do euro.
COMO A TROCA FUNCIONA
A troca é feita em qualquer filial do Bundesbank, sem limite de valor e sem cobrança. Não precisa ser cidadão alemão nem ter conta no país: turista estrangeiro com marcos na mala também é atendido no balcão.
Quem mora longe pode enviar o dinheiro pelo correio para a filial do Bundesbank em Mainz, com um formulário preenchido e os dados de uma conta bancária. O valor em euros cai na conta depois da conferência.
Nota rasgada ou queimada também tem saída. O centro de análise do Bundesbank em Mainz examina o papel danificado e paga o valor cheio quando mais da metade da cédula está presente, ou quando o dono prova que o resto foi destruído.
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Moeda que sai de circulação guarda o valor enquanto o banco central aceita trocá-la; perde tudo quando o guichê fecha.
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Para o banco, manter a troca aberta custa pouco. O dinheiro não devolvido segue registrado como obrigação no balanço, e cada nota que volta apenas cancela essa conta, trocada por euros que o próprio banco emite.
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II Análise de Oportunidade
II, O que a França ganhou fechando o guichê
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Cada país do euro definiu sozinho o prazo de troca da moeda antiga. A França deu 3 anos para as moedas de franco, até fevereiro de 2005, e 10 anos para as cédulas, até 17 de fevereiro de 2012.
Quando o prazo venceu, o valor das notas que ninguém trouxe deixou de ser uma dívida do banco central com o portador. Esse dinheiro foi repassado ao Tesouro francês, o caixa do governo, como receita.
A Itália tentou um atalho. A lira podia ser trocada até fevereiro de 2012, mas o governo do primeiro-ministro Mario Monti antecipou o fim da troca por decreto em dezembro de 2011, dentro de um pacote de corte de gastos. Em 2015, a Corte Constitucional italiana declarou a antecipação inconstitucional, e portadores que perderam o prazo puderam reclamar o valor.
A Espanha estendeu a troca da peseta várias vezes e encerrou o serviço no Banco de España em 30 de junho de 2021. Alemanha, Áustria e Irlanda seguem trocando cédulas e moedas sem prazo final.
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Nem todos os alemães acreditam em Deus, mas todos acreditam no Bundesbank. (Jacques Delors, presidente da Comissão Europeia, em 1992)
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O CONTRATO DO PAPEL
A frase de Delors explica a escolha alemã. Uma cédula é uma promessa do banco central, e o Bundesbank decidiu que a promessa do marco não teria data de validade, mesmo com a moeda fora de circulação há mais de duas décadas.
A diferença entre os dois modelos tem nome técnico: senhoriagem (o lucro que o emissor tem com o dinheiro que põe em circulação). Quando o prazo de troca vence, a nota que nunca voltou vira ganho definitivo para o Estado. A França embolsou esse ganho; a Alemanha abriu mão dele em troca de confiança.
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O valor de uma cédula guardada depende de duas datas: a do fim da circulação e a do fim da troca.
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A oportunidade de leitura está nessa segunda data. Quem guarda dinheiro físico estrangeiro, por viagem, herança ou reserva, carrega um ativo com prazo de validade que quase ninguém confere.
O dólar americano segue a lógica alemã. Segundo o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, todas as cédulas emitidas desde 1861 continuam valendo pelo valor de face, inclusive as de desenho antigo.
O real brasileiro segue outra. O Banco Central do Brasil não troca mais cédulas de cruzeiro, cruzado ou cruzeiro real. O papel das moedas anteriores ao Plano Real, de 1994, só tem valor para colecionador.
Na prática, o brasileiro que guarda notas de viagens antigas mistura na mesma gaveta papel com valor garantido e papel que já perdeu a troca oficial. A diferença só aparece quando alguém tenta trocar, e aí o prazo já pode ter passado.
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