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Os 9,79 trilhões de ienes que o Japão gastou em 1 mês
Em abril de 2024, o iene bateu 160 por dólar, a cotação mais fraca desde 1990. Tóquio foi ao mercado comprar a própria moeda.
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Cédulas de iene, a moeda do Japão
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A 35 graus e 40 minutos de latitude norte, no bairro de Kasumigaseki, em Tóquio, fica o prédio do Ministério das Finanças do Japão. Das mesas de câmbio do ministério, os funcionários acompanham em telas a cotação do iene contra o dólar americano, inclusive nos feriados.
Em 29 de abril de 2024, uma segunda-feira, o Japão estava parado. Era o Dia de Showa (feriado em homenagem ao imperador Hirohito), parte da Golden Week, a semana de feriados emendados que esvazia escritórios e bolsas do país no fim de abril.
Com o mercado de Tóquio fechado, o iene seguiu sendo negociado em Singapura, Londres e Nova York. Nas primeiras horas daquela segunda, a cotação passou de 160 ienes por dólar, marca que a moeda japonesa não via desde abril de 1990.
O número tinha peso político. Um iene fraco encarece tudo o que o Japão compra de fora, do petróleo ao trigo, e o país importa quase toda a energia que consome. As famílias sentiam a alta no supermercado e na conta de luz.
A causa estava na distância entre os juros. O Federal Reserve (Fed), o banco central americano, mantinha a taxa entre 5,25% e 5,5% ao ano. O Banco do Japão tinha saído do juro negativo em março de 2024 e deixado a taxa entre zero e 0,1%. O dinheiro atrás de rendimento saía do iene e ia para o dólar.
Horas depois da marca de 160, a cotação despencou para perto de 155 em poucos minutos, sem notícia que explicasse o tombo. Operadores do mundo inteiro suspeitaram de mão oficial. Em Tóquio, o vice-ministro de Finanças para Assuntos Internacionais, Masato Kanda, se recusou a confirmar ou negar.
Na madrugada de 2 de maio, horário japonês, logo depois de uma reunião do Fed em Washington, o iene deu outro salto brusco, de novo sem anúncio.
Quanto o governo gastou, de onde saiu o dinheiro e quanto tempo o efeito durou abrem o Painel da Semana.
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I Painel da Semana
I, A conta que Tóquio publicou em 31 de maio
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Como o Japão gastou reservas para defender o iene, e por que o dinheiro não bastou.
Em 31/5/2024, o Ministério das Finanças do Japão publicou o número: entre 26 de abril e 29 de maio, o governo gastou 9,79 trilhões de ienes comprando a própria moeda, algo perto de US$ 62 bilhões na cotação da época. O valor superou os cerca de 9,2 trilhões que o país tinha gasto em duas rodadas, em setembro e outubro de 2022, na defesa anterior do iene.
A intervenção cambial (compra ou venda de moeda pelo governo para mexer na cotação) no Japão segue uma divisão fixa. O Ministério das Finanças decide quando e quanto. O Banco do Japão executa as ordens no mercado, como agente do ministério.
O ministério não precisa anunciar a operação quando ela acontece. A regra da casa é divulgar o total só depois, o que deixa o mercado adivinhando por semanas se houve ou não dinheiro público na cotação.
O comunicado de maio trouxe só o total do período. O detalhe por dia saiu no relatório trimestral do ministério, em agosto de 2024, e confirmou a suspeita dos operadores: 5,92 trilhões de ienes em 29 de abril, no feriado, e 3,87 trilhões em 1º de maio, horas depois da reunião do Fed.
DE ONDE SAIU O DINHEIRO
Para comprar ienes, o governo precisa vender outra moeda. O Japão usou parte das reservas internacionais, o estoque de dólares e títulos do Tesouro americano guardado pelo Ministério das Finanças. Segundo o próprio ministério, as reservas somavam cerca de US$ 1,28 trilhão no fim de abril de 2024, a segunda maior do mundo, atrás só da China.
Na prática, Tóquio vendeu títulos e depósitos em dólar, recebeu os dólares e trocou esse dinheiro por ienes no mercado. A operação aumenta a procura pela moeda japonesa e reduz o número de ienes que um dólar compra.
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Intervenção não muda a causa do câmbio: ela compra tempo, e o preço desse tempo sai das reservas do país.
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O efeito imediato apareceu. Depois das duas rodadas, o iene voltou para a faixa de 152 a 153 por dólar na primeira semana de maio, e Masato Kanda seguiu sem confirmar a operação até a divulgação oficial.
O alívio durou pouco. A diferença de juros entre Estados Unidos e Japão continuava do mesmo tamanho, e o iene voltou a enfraquecer ao longo de junho. Em 3 de julho de 2024, bateu 161,9 por dólar, a cotação mais fraca desde dezembro de 1986.
O governo voltou ao mercado em 11 e 12 de julho, com mais 5,53 trilhões de ienes, segundo o Ministério das Finanças. Somadas, as intervenções de 2024 passaram de 15 trilhões de ienes, perto de US$ 100 bilhões tirados das reservas.
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II Análise de Oportunidade
II, O juro que virou a cotação
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O dinheiro sozinho não resolveu a briga do Ministério das Finanças. A virada veio do Banco do Japão, presidido pelo economista Kazuo Ueda desde abril de 2023.
Em 31 de julho de 2024, o Banco do Japão subiu os juros para 0,25% ao ano. Horas depois, o presidente do Fed, Jerome Powell, sinalizou que o corte dos juros americanos poderia vir em setembro. A distância entre as taxas dos dois países começou a encolher.
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O dólar é a nossa moeda, mas é o seu problema. (John Connally, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, a ministros europeus na reunião do G10 em Roma, 1971)
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A APOSTA QUE DESMONTOU
A fraqueza do iene tinha uma operação por trás, conhecida no mercado como carry trade (arbitragem de juros: tomar dinheiro emprestado numa moeda de juro baixo para aplicar numa de juro alto). Fundos e bancos tomavam ienes a quase zero, trocavam por dólares e compravam títulos americanos que rendiam acima de 5%.
Enquanto o iene enfraquecia, a aposta rendia duas vezes: o juro americano e a dívida em ienes encolhendo quando medida em dólar. Quando o iene começou a subir, a conta virou. Para devolver os ienes emprestados, os investidores precisaram comprar ienes, e a moeda subiu ainda mais depressa.
Em 5 de agosto de 2024, o índice Nikkei 225, o principal da Bolsa de Tóquio, caiu 12,4%, a maior queda em pontos da história do índice e a maior em porcentagem desde outubro de 1987. O iene chegou a ser negociado perto de 142 por dólar.
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Reserva defende a moeda por semanas; juro defende por meses.
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A frase de Connally descreve o Japão de 2024. A cotação do iene dependia mais da decisão tomada pelo Fed em Washington do que dos 9,79 trilhões gastos em Tóquio.
A oportunidade de leitura está no sinal que antecede a virada. Enquanto a diferença de juros entre dois países fica larga e parada, a moeda de juro baixo tende a enfraquecer, e intervenções viram freio temporário. A mudança chega quando os bancos centrais passam a andar em direções opostas.
Para o brasileiro, o caso do iene toca o real por outro caminho. O Brasil paga juro alto e costuma receber dinheiro do carry trade. Quando a aposta desmonta, esse dinheiro sai em bloco de vários mercados, e o real sofre junto. Em 5 de agosto de 2024, o dólar passou de R$ 5,70 durante o pregão no Brasil.
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