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A menos de quatro metros acima do nível do mar, na ponta oeste da ilha de New Providence, nas Bahamas, fica o condomínio Albany: marina de água rasa, três torres brancas de vinte andares, campo de golfe encostado no mar aberto. De uma cobertura daquele conjunto saía a operação da FTX Trading Ltd., corretora de criptomoedas avaliada por seus próprios investidores em US$ 32 bilhões em janeiro de 2022, dez meses antes de parar de devolver dinheiro a quem tinha conta lá.
Na manhã de 8 de novembro de 2022, o botão de saque da plataforma deixou de responder. Cliente de Manila, de São Paulo e de Berlim abria o aplicativo, via o saldo em bitcoin na tela, tocava em retirar e recebia uma fila que não andava. O saldo continuou aparecendo por semanas. O ativo por trás dele já tinha sido consumido por uma empresa irmã.
Três dias depois, em 11 de novembro de 2022, a FTX e outras 130 empresas ligadas a ela pediram recuperação judicial pelo Capítulo 11 na corte de falências do distrito de Delaware, nos Estados Unidos, sob o número de caso 22-11068. O pedido fixa uma data que a maioria dos clientes nunca tinha ouvido falar: a petition date, ou data do pedido, o marco a partir do qual a lei americana passa a medir tudo o que a massa falida deve.
A lei de falências dos Estados Unidos manda converter cada crédito em dólar pela cotação vigente nessa data, procedimento que os advogados chamam de dolarização do crédito, ou seja, a troca do ativo original por um valor fixo em moeda. Quem tinha um bitcoin custodiado na corretora deixou de ser dono de um bitcoin naquela quinta-feira e virou credor de uma quantia em dólar, calculada com a moeda na casa dos US$ 17 mil.
O relógio entre o saque travado e a petição em Delaware coube em três dias, e cada um deles tem registro em documento de tribunal ou em comunicado público de bolsa. Vale reconstruir essa semana antes de discutir o que ela ensina sobre guardar ativo na conta de um terceiro.
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I Painel da Semana
Três dias entre o saque travado e Delaware
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O que aconteceu entre a suspensão dos saques e a petição na corte de Delaware.
Samuel Bankman-Fried, formado em física pelo MIT e fundador da FTX Trading Ltd. em 2019, renunciou à presidência da corretora em 11 de novembro de 2022, no mesmo documento que levou a empresa à corte de falências de Delaware. O cargo passou naquele dia para John J. Ray III, advogado americano de reestruturação que antes havia conduzido a liquidação da Enron.
A trinca de dias começou numa reportagem. Em 2 de novembro de 2022, o site CoinDesk publicou matéria assinada por Ian Allison sobre um balanço vazado da Alameda Research, a mesa de negociação irmã da corretora, e mostrou que boa parte do ativo declarado pela Alameda era FTT, a ficha emitida pela própria FTX.
Quatro dias depois, em 6 de novembro, Changpeng Zhao, fundador da Binance, anunciou em rede social que sua corretora venderia toda a posição em FTT que mantinha em livro. O preço da ficha despencou, e o cliente comum entendeu a mensagem antes de qualquer analista: começou uma corrida por saque que, segundo a própria FTX informou depois em juízo, chegou a cerca de US$ 5 bilhões em pedidos num único dia.
O QUE TRAVOU EM TRÊS DIAS
Em 8 de novembro a corretora suspendeu as retiradas. Ainda naquele dia, Binance e FTX assinaram uma carta de intenção de compra, documento preliminar sem obrigação de fechar negócio, e a Binance desistiu na tarde seguinte alegando buraco patrimonial grande demais para cobrir. Sem comprador, restou a corte.
A petição de 11 de novembro trouxe 134 empresas do grupo, incluindo a Alameda Research e a operação americana FTX US, que até a véspera era apresentada ao público como entidade separada e segura. O primeiro balanço apresentado em juízo estimava ativos e passivos entre US$ 10 bilhões e US$ 50 bilhões, faixa que já denunciava a ausência de contabilidade confiável.
Na madrugada seguinte à petição, carteiras da corretora foram esvaziadas por um terceiro não autorizado, com perda estimada em US$ 415 milhões pelos advogados da massa. O responsável só foi identificado dois anos mais tarde, quando o Departamento de Justiça americano denunciou três pessoas por troca fraudulenta de chip de telefone celular.
Em 17 de novembro de 2022, John J. Ray III protocolou sua declaração inicial no caso e descreveu ausência de controle de caixa, pagamento de despesa aprovado por emoji em aplicativo de mensagem e livros contábeis mantidos em planilha caseira. A companhia não tinha lista confiável de funcionários nem registro de quanto devia a cada cliente.
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II Análise de Oportunidade
A corte congela o preço, não o ativo
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A regra que transformou bitcoin em dólar não foi decisão de um juiz específico: a seção 502(b) do código de falências americano manda estimar cada crédito em dólar na data do pedido, e o plano homologado pela corte de Delaware em 7 de outubro de 2024 aplicou a regra usando a cotação daquela quinta-feira de novembro, com o bitcoin em US$ 16.871. Quem tinha um bitcoin na conta virou credor de dezesseis mil oitocentos e setenta e um dólares, com um centavo sequer a mais que o mercado não pagaria.
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A conta ficou visível quando o dinheiro começou a sair. As primeiras distribuições aos clientes saíram em fevereiro de 2025, pelas corretoras Kraken e BitGo, contratadas pela massa como agentes pagadores. O FTX Recovery Trust, entidade criada para administrar o pagamento, informou que a maior parte dos credores receberia cerca de 119% do crédito habilitado, resultado alto para uma falência dessa natureza.
Alto em dólar, pequeno em bitcoin. Na semana das primeiras distribuições, a moeda era negociada acima de US$ 90 mil na maioria das corretoras internacionais. O credor que tinha um bitcoin na FTX recebeu pouco mais de vinte mil dólares por um ativo que, fora da corretora, valia cinco vezes o cheque.
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John J. Ray III escreveu na Declaration in Support of Chapter 11 Petitions and First Day Pleadings, protocolada no caso 22-11068 em novembro de 2022, que em quarenta anos de carreira em reestruturação nunca havia visto falha tão completa de controles corporativos e ausência tão absoluta de informação financeira confiável.
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O QUE MUDOU DEPOIS E O QUE SEGUE SEM NÚMERO
A responsabilização criminal correu rápido. Samuel Bankman-Fried foi considerado culpado por um júri de Manhattan em 2 de novembro de 2023, em sete acusações de fraude e conspiração, e o juiz Lewis Kaplan aplicou pena de 25 anos de prisão em 28 de março de 2024. Caroline Ellison, que dirigia a Alameda Research, colaborou com a acusação e recebeu dois anos.
Convém dizer com todas as letras o que segue sem número fechado. Não existe apuração pública consolidada de quantos clientes venderam seu crédito a fundos especializados nos meses de pânico, quando a habilitação era negociada a uma fração do valor de face, nem levantamento oficial de quanto cada faixa de cliente perdeu ao receber dólar de 2022. O FTX Recovery Trust segue distribuindo em lotes, e o total só será conhecido quando o processo encerrar.
A regra que dolarizou os créditos continua em vigor nos Estados Unidos. Nenhuma reforma legislativa criou tratamento próprio para ativo digital custodiado em corretora falida, e o cliente que deixa moeda na conta de terceiro segue, em caso de quebra, na fila comum de credores, com o preço marcado no dia da petição.
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