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Synapse, a quebra que o seguro bancário ignorou

Em maio de 2024, a intermediária de apps faliu, o banco parceiro seguiu aberto e cerca de 100 mil clientes ficaram sem o saldo.

Tela de celular com aplicativo financeiro exibindo o saldo congelado.

Aplicativo financeiro com o saldo congelado

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A 37 graus e 46 minutos de latitude norte e 16 metros acima do nível do mar, em São Francisco, na Califórnia, ficava a sede da Synapse Financial Technologies. Dali não se enxergava cofre, agência nem caixa eletrônico. A empresa guardava outra peça do sistema: o registro de quem era dono de cada dólar depositado por meio de dezenas de aplicativos financeiros.

Em 11 de maio de 2024, a Synapse cortou o acesso do Evolve Bank & Trust, banco do Tennessee, aos sistemas que ela operava. Nas horas seguintes, clientes de aplicativos como Yotta, Juno e Copper abriram o celular e encontraram o saldo congelado. Eram cerca de 100 mil pessoas, e nenhuma delas tinha conta aberta diretamente na Synapse.

O caminho do dinheiro tinha três degraus. O cliente baixava o aplicativo, a fintech (empresa de tecnologia que oferece serviço financeiro) repassava o depósito à Synapse, e a Synapse o levava a um banco parceiro. No rodapé da tela aparecia a frase "FDIC insured" (segurado pelo FDIC, o fundo federal americano que garante depósitos bancários).

O dinheiro estava dentro de bancos. Faltava saber de quem era cada parcela. A maior parte ficava em contas coletivas abertas em nome da Synapse, e a lista que separava o saldo de cada cliente morava nos servidores da intermediária, não nos do banco.

Quando os clientes recorreram à garantia federal, receberam uma recusa. O FDIC paga quando um banco segurado fecha as portas. O Evolve continuou funcionando, e a falência de uma empresa de tecnologia, por maior que seja o estrago, fica fora do alcance do seguro.

Pense numa professora hipotética com US$ 12 mil guardados no Yotta para a entrada de uma casa, um perfil comum entre os clientes afetados. Ela passaria semanas sem conseguir sacar um centavo. O banco dizia não ter o registro dela; a fintech dizia depender da Synapse; a Synapse estava sob processo de falência.

A conta que mediu o buraco entre o que os aplicativos mostravam e o que os bancos tinham de fato saiu de uma ex-presidente do próprio FDIC. Os valores que ela encontrou, e a forma como o registro se perdeu sem nenhum banco quebrar, abrem a primeira seção.

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I  Painel da Semana

I, Os milhões que sumiram entre o app e o banco

Como uma empresa de tecnologia quebrou e levou junto o registro de quem era dono de cada dólar.

A Synapse pediu recuperação judicial em 22 de abril de 2024, pelo Capítulo 11 da lei de falências americana (o regime que permite a uma empresa reorganizar dívidas sob supervisão de um juiz). A empresa, fundada em 2014 por Sankaet Pathak, tinha perdido clientes grandes e tentava vender seus ativos à TabaPay, uma processadora de pagamentos. A venda desandou nas primeiras semanas de maio.

O modelo da Synapse tinha nome de mercado: banking as a service (banco como serviço, o aluguel da estrutura de um banco para empresas que não têm licença bancária). Ela ficava no centro de uma rede com quatro bancos parceiros, entre eles o Evolve, o Lineage Bank, a AMG National Trust e o American Bank.

Com a venda desfeita, a Synapse parou de pagar fornecedores e desligou o acesso dos bancos ao livro-razão (o registro contábil que diz quanto cada cliente tem). Sem esse arquivo, os bancos sabiam quanto havia em cada conta coletiva, mas não sabiam como dividir o valor entre os clientes finais.

O tribunal de falências do Distrito Central da Califórnia nomeou em maio de 2024 Jelena McWilliams como administradora judicial do caso. McWilliams presidiu o FDIC entre 2018 e 2022, e coube a ela reconstruir quem tinha direito a quê.

O QUE A ADMINISTRADORA ENCONTROU

Nos relatórios que McWilliams entregou ao tribunal em 2024, cerca de US$ 265 milhões estavam congelados nas contas ligadas à Synapse. Ao cruzar os saldos que os aplicativos exibiam com o dinheiro localizado nos bancos, ela apontou uma diferença entre US$ 65 milhões e US$ 96 milhões.

O saldo existia na tela do aplicativo; o dinheiro correspondente, em parte, não existia em conta nenhuma.

Os pagamentos começaram no meio de 2024, banco por banco, e vieram desiguais. Alguns clientes receberam o valor inteiro. Outros receberam uma fração pequena do saldo, com a promessa de novos repasses à medida que a reconciliação (o confronto linha a linha entre dois registros para achar onde divergem) avançasse.

A origem exata da diferença continua sem explicação pública completa. Os bancos culparam os registros da Synapse; a Synapse e seu fundador culparam movimentações feitas pelos bancos. Até a última prestação de contas aberta ao público, nenhuma das versões tinha sido confirmada pela Justiça, e o motivo é concreto: os arquivos de cada parte não fecham entre si, e cada lado controla uma metade da história.

A professora do exemplo ilustra o desenho do prejuízo. O depósito dela saiu do banco da família, passou por duas empresas de tecnologia e chegou a um banco segurado. Em nenhum ponto do trajeto um banco faliu, e mesmo assim o saldo dela ficou meses sem data para voltar.

 
 

II  Análise de Oportunidade

II, O seguro que só enxerga o banco

A garantia americana foi desenhada em 1933 para um risco: o banco que quebra e leva os depósitos junto. Ela protege o cliente contra a falência da instituição, e o evento que a dispara é o fechamento do banco pelas autoridades.

Todo banqueiro sabe que, se tiver de provar que merece crédito, por melhores que sejam seus argumentos, seu crédito já se foi. (Walter Bagehot, Lombard Street, 1873)

Quando o dinheiro chega ao banco por uma intermediária, entra em cena o seguro repassado (pass-through, a cobertura que alcança o dono real do dinheiro guardado em conta coletiva). Ele funciona se duas condições forem cumpridas: o banco quebrar e os registros identificarem cada beneficiário.

No caso Synapse, as duas condições falharam. Nenhum banco quebrou, e os registros que identificariam os beneficiários estavam incompletos. O FDIC declarou publicamente em 2024 que o seguro não cobre a falência de empresas não bancárias.

A logomarca do FDIC na tela garantia o banco parceiro, e o risco que atingiu os clientes estava um degrau acima dele.

ONDE A PROMESSA DO APLICATIVO PARAVA

O desenho em camadas tem uma vantagem real. Uma fintech lança uma conta digital em meses, sem precisar de licença bancária, e o cliente ganha juros maiores, tarifa zero ou recursos que o banco tradicional não oferece.

O custo aparece no contrato. O cliente assina com a fintech, não com o banco. Quem mantém o registro do saldo é uma terceira empresa. Se essa empresa some, o banco pode ter o dinheiro guardado e, ao mesmo tempo, nenhum documento para devolvê-lo ao dono certo.

Os reguladores reagiram. Em 2023, o FDIC aprovou regra que obriga bancos a exibir o selo oficial nos canais digitais e proíbe apresentar como segurado um produto que não é. Em 17/09/2024, o órgão propôs outra regra, exigindo que bancos com contas coletivas mantenham registro próprio de cada dono e confiram os saldos todo dia útil.

A proposta atinge o ponto frágil do caso: o registro morava fora do banco. Enquanto ela não vira regra final, a proteção do cliente continua dependendo da qualidade dos arquivos de uma empresa que ele nunca escolheu.

 

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III  O Que Fazer Agora

III, Quatro perguntas para o app que guarda seu saldo

O desenho do caso Synapse existe também no Brasil. Contas digitais de instituições de pagamento (empresas autorizadas pelo Banco Central a emitir conta e cartão, sem ser banco) guardam dinheiro de milhões de brasileiros, e a regra local é outra.

A Lei 12.865, de 2013, obriga a instituição de pagamento a manter o saldo dos clientes separado do patrimônio dela, aplicado em títulos públicos federais ou depositado no Banco Central. Em caso de falência, o dinheiro separado não entra na massa (o conjunto de bens usado para pagar os credores da empresa quebrada).

Primeiro passo: descubra quem guarda o seu dinheiro. Pegue o CNPJ no rodapé do aplicativo e consulte a página "Encontre uma instituição" no site do Banco Central. Ela mostra se a empresa é banco, instituição de pagamento ou correspondente sem autorização própria.

Segundo passo: leia a linha do extrato que descreve o saldo. Conta de pagamento, depósito à vista e CDB emitido por banco parceiro seguem regras diferentes; o CDB precisa trazer a identificação do banco emissor e o seu CPF como titular.

Terceiro passo: em conta em dólar aberta por aplicativo, pergunte ao suporte, por escrito, qual banco custodia o dinheiro e se a conta está em seu nome ou numa conta coletiva da empresa. Guarde a resposta.

Quarto passo: baixe o extrato em PDF todo mês e salve fora do aplicativo. No caso Synapse, quem tinha o próprio registro do saldo teve com que contestar a divisão feita pelos bancos.

O extrato guardado fora do aplicativo é a única prova do saldo que não depende da empresa que o mostra.

Distribuir o dinheiro entre instituições diferentes também reduz o estrago de uma falha operacional, que pode travar o acesso por semanas mesmo sem prejuízo final. A reserva de emergência, em especial, pede uma casa onde o saldo esteja em seu nome e o registro fique dentro da própria instituição autorizada.

"Em qual instituição, com CNPJ e tipo de licença, está guardado o saldo do seu app de uso diário?"

A regra proposta pelo FDIC em 17/09/2024 ainda não tinha versão final publicada até esta edição. Reconfira o andamento na página de regras propostas do site do FDIC em 15/01/2027, e a lista de instituições autorizadas no site do Banco Central no mesmo dia.

 
 
Quiz da edição

Quem foi nomeada pelo tribunal de falências, em maio de 2024, para reconstruir a quem pertencia cada saldo preso na quebra da Synapse?

ASankaet Pathak, fundador da Synapse
BJelena McWilliams, ex-presidente do FDIC
CUm executivo do Evolve Bank & Trust
DUm diretor da TabaPay

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