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Zimbábue, a moeda de ouro que perdeu 43% em 1 dia
Em abril de 2024, o ZiG estreou com lastro em ouro e divisas. Em 27 de setembro, o banco central cortou quase metade do valor oficial.
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Cédulas de ZiG, a moeda do Zimbábue
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A 1.490 metros de altitude, em Harare, fica a sede do Reserve Bank of Zimbabwe, o banco central do Zimbábue, na avenida Samora Machel. Das janelas do prédio se vê o centro financeiro da capital, onde cambistas informais vendem dólares americanos nas calçadas há mais de duas décadas.
Em 5 de abril de 2024, o recém-empossado governador do banco, John Mushayavanhu, anunciou naquele prédio uma nova moeda nacional: o ZiG, sigla de Zimbabwe Gold (ouro do Zimbábue). Era mais uma tentativa de devolver ao país um dinheiro próprio que a população aceitasse guardar.
O país conhecia o roteiro. Em 2008, o dólar zimbabuano entrou em hiperinflação (alta de preços descontrolada, que corrói o salário em dias) e o banco central chegou a imprimir uma cédula de 100 trilhões de dólares. Em 2009, o governo abandonou a moeda e passou a aceitar o dólar americano e o rand sul-africano nas transações do dia a dia.
Em 2019 veio o dólar RTGS, moeda eletrônica batizada com a sigla do sistema de pagamentos entre bancos, que também perdeu valor ano após ano. O ZiG chegou para substituí-lo, com conversão de 2.498,7 dólares RTGS por 1 ZiG.
A promessa desta vez soava diferente. O banco central anunciou que cada ZiG em circulação teria lastro (garantia física guardada no cofre) em ouro e em moedas estrangeiras mantidos pela própria instituição. Na estreia, a cotação oficial ficou perto de 13,5 ZiG por dólar americano.
As cédulas novas chegaram aos bancos no fim de abril de 2024. Comerciantes de Harare passaram a exibir preços em duas colunas, uma em dólar e outra em ZiG, e boa parte dos clientes continuou pagando com a nota verde americana, que seguia valendo por lei.
Por alguns meses, a cotação oficial quase não se mexeu. Nas calçadas da Samora Machel, porém, o preço do dólar em ZiG subia semana a semana.
O que o banco guardava no cofre, quanto a cotação oficial cedeu e por que a promessa de ouro não segurou o câmbio abrem o Painel da Semana.
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I Painel da Semana
I, A cotação que saltou de 14 para 24
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Como um banco central com ouro no cofre precisou cortar quase metade do valor da própria moeda.
Em 27/9/2024, o Reserve Bank of Zimbabwe (RBZ) levou a cotação oficial do ZiG de cerca de 14 para cerca de 24,4 por dólar americano, uma desvalorização perto de 43% num único dia. A decisão saiu do comitê de política monetária do banco, reunido em Harare, e passou a valer para bancos e empresas já no pregão seguinte.
Nos meses anteriores, a taxa oficial tinha ficado quase parada. No mercado paralelo (câmbio de rua, fora dos bancos), o dólar era vendido por bem mais ZiG. Com dois preços para a mesma moeda, exportadores passaram a evitar o câmbio oficial, e o dólar sumiu dos balcões dos bancos.
O governador John Mushayavanhu apresentou a medida como correção de rota. Segundo o banco, a nova taxa aproximava o câmbio oficial do preço praticado na rua e acabava com a vantagem de quem comprava dólar barato no sistema bancário para revender na calçada.
O QUE HAVIA NO COFRE
Na apresentação de abril de 2024, o próprio RBZ informou o lastro inicial: cerca de 2,5 toneladas de ouro e perto de US$ 100 milhões em divisas, somando algo como US$ 285 milhões em reservas declaradas.
O lastro, porém, não era conversível. Nenhum cidadão podia levar uma cédula de ZiG ao banco central e sair de lá com ouro ou com dólar. A garantia ficava registrada no balanço do banco, sem guichê onde o portador pudesse resgatá-la.
Sem resgate, o valor do ZiG dependia de confiança. E a confiança no dinheiro emitido em Harare tinha sido queimada em 2008 e de novo com o dólar RTGS.
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Lastro que o cidadão não pode resgatar funciona como promessa, e promessa de banco central vale o que o câmbio paralelo aceita pagar por ela.
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O Fundo Monetário Internacional (FMI) vinha recomendando ao Zimbábue, em comunicados da equipe técnica ao longo de 2024, uma taxa de câmbio mais flexível e o fim da distância entre o câmbio oficial e o paralelo. O ajuste de setembro atendeu a essa cobrança, com atraso de meses.
Depois da desvalorização, o banco manteve o discurso de que o lastro seguia de pé e passou a deixar a cotação oscilar mais. O ZiG continuou como moeda legal, junto com o dólar americano, que seguiu dominando aluguéis, salários do setor privado e compras de maior valor.
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II Análise de Oportunidade
II, Por que o ouro não segurou a moeda
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Guardar ouro no cofre não basta para sustentar uma moeda. O que conta é a relação entre o que o banco central guarda e a quantidade de dinheiro que ele coloca na rua. Se a emissão cresce mais rápido que o cofre, cada cédula passa a representar menos ouro, com ou sem anúncio oficial.
No caso do ZiG, o governo seguiu pagando fornecedores e servidores com dinheiro novo, e parte da população correu para o dólar assim que recebia em ZiG. Cada troca aumentava a pressão sobre a cotação.
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A inflação é sempre e em qualquer lugar um fenômeno monetário. (Milton Friedman, The Counter-Revolution in Monetary Theory, 1970)
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QUEM JÁ TENTOU A MESMA PROMESSA
O mundo já viu o lastro formal ceder à pressão do câmbio. Em 15/8/1971, o presidente americano Richard Nixon suspendeu a conversão do dólar em ouro para bancos centrais estrangeiros, porque os Estados Unidos tinham emitido mais dólares do que o ouro guardado em Fort Knox podia cobrir.
O episódio ficou conhecido como choque Nixon, o fim do sistema de Bretton Woods (acordo de 1944 que atrelava as principais moedas ao dólar, e o dólar ao ouro). Dali em diante, nenhuma grande moeda do mundo voltou a ter conversão garantida em metal.
Na Argentina, a Lei de Conversibilidade de 1991 fixou 1 peso por 1 dólar e obrigou o banco central a guardar reservas para cada peso emitido. Em janeiro de 2002, com as reservas esgotadas pela fuga de depósitos, o governo abandonou a paridade e o peso perdeu cerca de dois terços do valor em poucos meses.
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O lastro só protege quem segura a moeda enquanto o governo resiste à tentação de emitir além do cofre.
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A oportunidade de leitura está no intervalo entre o câmbio oficial e o paralelo. Quando os dois se afastam e o banco central insiste na taxa antiga, a desvalorização tende a chegar, e costuma chegar grande. O caso do ZiG repetiu o padrão: a taxa oficial ficou congelada por meses e caiu quase metade numa tarde de reunião.
Para o investidor brasileiro, o Zimbábue parece distante, mas o mecanismo aparece em qualquer produto que se apresente como lastreado. Tokens digitais que prometem ouro, moedas de países com câmbio controlado e títulos de emissores com histórico de calote usam a mesma palavra para vender segurança.
O real, por exemplo, não tem lastro em ouro, e o Banco Central do Brasil deixa o câmbio flutuar desde janeiro de 1999. A proteção de quem guarda reais vem da taxa de juros e da credibilidade da política monetária, sem cofre de ouro atrás das cédulas.
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